Conferência “Arte y Erotismo” com Guillermo Solana

Conferência DAD-FBAUP:
“Arte y Erotismo” com Guillermo Solana
Director Artístico do Museo Thyssen-Bornemisza de Madrid
21 de Março de 2014, sexta feira, pelas 16h
Aula Magna da FBAUP

Organização:
Doutoramento em Arte e Design
Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto

As lágrimas de Eros*

O Thyssen-Bornemisza organizou há meses uma exposição chamada Lágrimas de Eros. Como assim, lágrimas de Eros? Na nossa cultura de optimismo sexual, parece uma contradição. Não é. Em Les Larmes d”Éros (1961), Georges Bataille escreveu: “A morte é associada às lágrimas, e às vezes o desejo sexual é associado ao riso. Mas o riso não é, como parece, o contrário das lágrimas: o objecto do riso e o objecto das lágrimas estão ambos ligados a uma espécie de violência que interrompe o curso regular e habitual das coisas. As lágrimas estão geralmente associadas a acontecimentos inesperados, desoladores, mas um resultado feliz e inesperado também nos pode comover até às lágrimas. A desordem sexual, evidentemente, não nos causa lágrimas, mas ainda assim perturba-nos (…).”

A exposição nasceu das ideias de Bataille. No ensaio já citado, um estudo de antropologia sexual, o escritor francês recusa a visão inócua da sexualidade. Há em todas as culturas, diz Bataille, uma coincidência entre a morte e o erotismo que torna este em algo de “diabólico”. A sexualidade está ligada ao nascimento, à procriação, à utilidade, mas o homem, espécie consciente, quebrou essa naturalidade. Consciente da morte e consciente da libido, o homem sabe que Eros tem uma dimensão diabólica. Eros é um impulso demente, um transporte irreprimível, que nos deixa por vezes à beira do abismo. Na pintura ocidental, lembra Bataille, Eros foi sempre alegoria de Thanatos, de Cranach e Bacon.

A cultura do optimismo sexual não compreende o conceito de “lágrimas de Eros”. Bataille explica porquê: desvalorizámos a componente religiosa da sexualidade. E agora há aspectos que nos escapam. É fácil dizer que o cristianismo condena a sexualidade; mas é preciso percebermos que o interdito religioso é a suprema homenagem ao erotismo, e também um elo de ligação entre o sagrado e o profano. A sexualidade, tal como o divino, é alguma coisa que excede a simples realidade, é uma dimensão visceral que violenta o nosso conforto quotidiano. E isso não nasceu com o cristianismo: Bataille lembra que os cultos dionisíacos eram cultos do trágico. O que mudou, desde os gregos, foi o avanço do sujeito individual, que cultiva um utilitarismo hedonista indiferente ao religioso. Muita gente vive hoje como se houvesse sexualidade sem tragédia. Como se houvesse Eros sem lágrimas.

Não vi a exposição madrilena, mas uma crente nas lágrimas de Eros trouxe-me o catálogo. Uma pequena selecção das obras apresentadas mostra sem sombra de dúvida que os mitos de Eros são tantas e tantas vezes fonte de lágrimas. A Vénus “filha das ondas amargas” que penteia os cabelos longuíssimos como se sacudisse a morte (Amaury-Duval, 1862), as Evas sempre convidando serpentes, a Salomé que seduz e decapita, as Pietàs com a força varonil jazente nos braços maternais, Perseu de armadura cobiçando Andrómeda nua e acorrentada, o pobre Santo Antão, a quem o diabo tentou com mulheres nuas e monstros. Em 60 anos, mesmo os artistas progressistas não elidem as lágrimas de Eros. A Mulher nas Ondas (Courbet, 1868), entre oferecida e afogada, nos seus peitos impudicos, está metida nas águas fatais do desejo; Os Amantes (Magritte, 1928) estão próximos mas têm os rostos cobertos, como se nem pelo conhecimento carnal nos conhecêssemos de verdade.

E há ainda uma das impressionantes fotografias de Man Ray com a modelo Meret Oppenheim. O artista usou o processo de “solarização” na revelação da foto, de modo que o corpo nu e tombado de Meret está com os contornos a negro, transformada e transfigurada. O seu corpo é já o fantasma do seu corpo, um corpo diabólico, Eros com lágrimas como nos tinham dito que já não havia. O surrealismo era ateu, mas incorporou a religiosidade do romantismo, essa que fez de Eros um deus que chora.

É bom que a cultura de optimismo sexual seja ocasionalmente abalada por exposições como a do Thyssen-Bornemisza. A sexualidade não é apenas normal e saudável: é, volto a Bataille, “uma espécie de violência que interrompe o curso regular e habitual das coisas”. Não há Eros sem lágrimas.

artigo de PEDRO MEXIA [Público 04/09/2010]

* Exposição cujo o comissário foi Guillermo Solana, organizada pelo Museo Thyssen-Bornemisza e pela Fundación Caja Madrid ocorrida entre o passado dia 20 de Outubro de 2009 e 31 de Janeiro de 2010