Tropismo Fotográfico #2

Tropismo fotográfico é uma residência artística, realizada no âmbito da Bienal de Fotografia do Porto, que se centra nas possibilidades de renovação do espaço que a acolhe, a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, revisitando a sua história e propondo um olhar crítico, particularmente distanciado, sobre as reconfigurações e proximidades deste espaço de ensino e criação. Na sequência da residência realizada em 2019, nesta segunda edição, retoma-se o tema originalmente proposto em torno da aquisição de um terreno contíguo à faculdade para ampliação das suas instalações. Os edifícios abandonados que nessa altura o ocupavam — nomeadamente uma fábrica, um palacete e uma ilha — deram lugar, nos últimos dois anos, a outras ocupações e programas, funcionando como estaleiro de apoio à obra de reabilitação do Pavilhão de Escultura e Pintura, como oficinas de barros e gessos no interior do palacete, expandidas por atelieres em contentores dispostos no jardim.

Com a pandemia COVID 19, a noção de adaptação e transição proposta como tema de reflexão pela Bienal de Fotografia do Porto, assumiu uma dimensão inesperada e, neste período de seis meses em que a residência decorreu, muito se modificou dentro e fora da faculdade. Não se tratou apenas de pensar este espaço específico em transição, mas o modo como tudo nele passou a ser desligado da sua função e transferido para um imaterializado formato de ensino à distância. A obra continuou, mas as pausas e os recomeços, o acesso condicionado, as orientações gráficas para sentidos únicos e distâncias forçadas, implicaram uma alteração nos modos de fazer e produzir estas imagens, tanto pelo imperativo da resistência como, por vezes, pela efectiva impossibilidade de as concretizar.

Nesse sentido, foi igualmente importante dilatar o argu- mento da residência ao projecto de investigação Ecologia da Imagem, em curso no I2ADS, que tem como um dos eixos centrais a pesquisa de processos biodegradáveis para revelação de película e papel fotográfico. Com o intuito de reduzir a utilização de química tóxica presente nos métodos comumente utilizados nos laboratórios de fotografia, foram recuperados processos fotográficos primitivos bem como implementadas fórmulas fotográficas biodegradáveis como o caffenol e o caffenol-c, introduzido em 1995 por Scott Williams1, na criação dos projectos desenvolvidos na residência.

Quando em 1979, no seu conhecido ensaio On Photography, Susan Sontag usou a expressão ecologia da imagem, enunciando uma necessária reflexão sobre as implica- ções éticas e políticas do fazer das imagens, apontava para a desassociação entre o consumo/desperdício e a criação/produção das imagens técnicas e dos seus efeitos no meio ambiente. É por isso que, no atual context de urgência para a adopção de práticas sustentáveis, nos importou olhar para a mutação dos processos de produção e reutilização de materiais e equipamentos ligados ao aparato fotográfico, de modo a contrariar a habitual tendência de irreversibilidade da evolução tecnológica e fazê-lo a partir do lugar que deve preconizar esse debate.

Nesta edição, a selecção dos participantes foi realizada por intermédio de um concurso para uma bolsa de criação e contou com a participação de Mariana Fogaça, Rita Almeida Leite e o coletivo Lab.25, composto por Álvaro Oliveira, Miguel Teodoro, Rodrigo Machado e Rui Mota.2

O colectivo Lab 25, formou-se em 2019 como um laboratório dinâmico de experimentação artística reclamando
o seu nome do n.o 25 da antiga rua da Palma, onde se situa o próprio espaço que dá mote a esta residência. Desenvolvendo um projecto de arqueologia urbana que se expôs em Morar/Murar (2019) e Promenade (2020), ensaiam agora, na série Apparatus (2021), a composição de imagens follies que assimilam a performatividade do acto fotográfico com o encontro de objectos disfuncionais e dispersos. São imagens de obras em obra que privilegiam a indistinção entre activação e criação e desafiam noções de autoria e reconhecimento artístico.

Acumuladas nos escombros de um provisório estaleiro a encenação destas follies, que nos remetem para o universo dos jardins pitorescos, são como que submetidas ao ritual dos protocolos de catalogação, num jogo de conservação crítica de objets trouvés a inscrever no acervo museológico da faculdade em tempos de deslocação e ampliação do seu património.

Na sequência da investigação visual que Mariana Fogaça realiza sobre a interdependência entre sistemas naturais e humanos, este projecto assume um olhar privado sobre as estórias do jardim da família Narciso e Azevedo, na transição entre o seu estado selvagem e por isso romantizado, interrompido no final de 2019, e as vivências e construções temporárias que se sucederam. Em (re)velar, inscreve-se esse momento de excepção, de encontro com o lugar simultaneamente ocupado e desocupado, da cedência do orgânico ao estranho mas também, do que é estranho e resistente ao próprio espaço.

A assombrosa araucária, originária do Brasil, que se alonga pelo lado oriental do jardim, torna-se o elemento de maior persistência, quer pela metáfora da migração que a envolve, quer pela adaptação da sua biologia às estações invertidas que lhe moldam as formas e os movimentos. A indefinição das imagens, reveladas com processos fotográficos orgânicos, conduzem essa metáfora para a sua superfície instável, como uma velatura dessas mutações.

Esta relação com o espaço do jardim prolonga-se na série O vazio do branco de Rita Leite, como uma imagem decalque do inventário de plantas que foi recolhendo no decorrer da residência e que se fixam sob a forma de quimigramas, imagens químicas que gravam e sublimam as imperfeições da natureza.

O livro, apresenta-se como uma placa ultrassensível, na qual as plantas perdem o nome, a configuração, a cor ou o aroma para se converterem numa compilação de enigmas da natureza — magia naturalis e, ao invés de definirem um percurso ou de nos confiarem os detalhes da sua morfologia, como nos herbários clássicos, mostram a sua apetência para a mutação e imensidão das suas formas e para a memória construída das presenças etéreas que preenchem o jardim.

A selecção de imagens que de seguida se publicam, pontuam documentalmente o período entre ambas as residências, desde o dia 4 Março de 2020, quando a torre do jardim da Casa de S. Lázaro foi demolida e a quinze dias de ser decretado o primeiro confinamento, até ao dia 18 de Junho de 2021, o último dia de ocupação dos contentores instalados temporariamente no jardim.

Susana Lourenço Marques

 

1 Williams S., 1995. «That last cup of coffee: photographic developers of last resort for the weary, the bleary, and the unrested», in Darkroom & Creative Camera Techniques, 1995, 16(5): p. 35–37.

2 Inicialmente previsto como uma exposição, o formato de apresentação dos projectos foi reajustado para a criação deste livro, do qual foi realizada uma edição normal de 70 exemplares e uma edição especial de 30 exemplares com uma fotografia 18 x 23 cm dos vários autores.

Ano 2021
PDF Booklet
PDF Lab25
PDF Mariana Fogaça
PDF Rita Leite