Fazer e Dizer nas Artes Plásticas e no Design

EDITORIAL

Fazer e dizer

Quando, em setembro de 1499, Louis XII de França invade a região da Lombardia e conquista Milão, deu-se início a uma mutação histórica que mais de quinhentos anos depois ainda é alvo de questionamento. A invasão origina, entre outras coisas, a destruição daquela que teria sido uma das maravilhas da arte, a enorme estátua equestre de um cavalo encomendada pelos Sforza a Leonardo da Vinci. Para além da utilização do bronze, desviado para o fabrico de armamento, é com a destruição do modelo em gesso que termina o ambicioso projeto, já que os militares franceses utilizaram o original para treinar tiro ao alvo, deitando por terra a possibilidade do projeto vir a ser concluído. 

Este evento ofuscou o que poderia ter sido um exemplo da clareza como o pensamento e ação artísticas de Leonardo estavam interligadas, num diálogo simbiótico entre o pensar e o fazer.

Todavia, o génio do Renascimento deixou-nos inúmeros exemplos dessas qualidades singulares, quer através das suas produções, quer, sobretudo das descrições metodológicas registadas em diversos documentos e projectos. A exemplo do homem do Quattrocento, Leonardo conjuga uma ação vocacionada com um pensamento erudito, a que poderíamos classificar de artista-cientista. 

A definição, toldada de controvérsia, assenta na ideia de uma ação criativa que se cruza com a razão, baseado num programa metodológico coerente com a definição de investigação. Trata-se, eventualmente, de uma pseudo definição, ou até de um pleonasmo, quando analisada pelo prisma da investigação e, se não haverá dúvida que Leonardo corresponde integralmente ao exemplo de conjugação entre arte e ciência, poderá não estar tão distante do pensamento e da ação de um qualquer artista, ou até mesmo, de uma ação criativa realizada por um qualquer cientista.

O artista é, frequentemente, caracterizado pela sua ação e pelos resultados da sua ação: pelo fazer. O cientista é, geralmente, definido pelos processos que regulam a sua pesquisa, pelas ferramentas metodológicas aplicadas e pelas intenções a que procura dar resposta. Todavia, o fazer no artista pode assentar em processos em tudo semelhantes aos que justificam a pesquisa científica, organizados da mesma forma ou não.

O fazer do artista é multifacetado. É ação pensante e pensamento ativo. É intuitivo e racional. É priori e posteriori. É norma e liberdade. É forma e abstração. É movimento e pausa. É acaso e programa. É destino e viagem. 

O fazer ocupa os atelieres, os museus, as galerias, os cinemas, a internet, as ruas, a paisagem.

Sobre o fazer poderá ser dito tudo e nada, sendo que será coisa distinta que se elenca com o fazer, o dizer sobre o fazer. Este pode ser da responsabilidade do que faz ou de um interlocutor, distante ou próximo física e temporalmente. 

Dizer sobre o fazer do artista é analisar e opinar. É clarificar e obscurecer. É dar forma e desconstruir. É dar significado e tornar anónimo. É relatar e extrapolar. É organizar e desclassificar. É dar e roubar. É dizer e desdizer. 

O dizer sobre o fazer é a base da História, da Crítica, da Linguagem, do Ensino. 

O fazer e o dizer sobre o fazer podem, portanto, estar interligados ou em rotura, actuando em conformidade ou em contraposto, mas dependendo dicotomicamente. Por continuidade, entenda-se um discurso que poderá trazer luz sobre o fazer, onde são descritas as intenções, os processos, as interpretações, os resultados. Em contraponto, o dizer pode ofuscar o fazer, interpelando-o negativamente ou abusivamente, condicionando-o ou promovendo a substituição do fazer pelo dizer sobre o fazer. 

O dizer (sobre o fazer) pressupõe a existência do fazer (ou do pensamento sobre o fazer), consciente que o dizer nada poderá alcançar sem a existência do outro, caindo no paradoxo. Contudo, a relação entre o fazer e o dizer, parece ter mais valias do que prejuízos, podendo consolidar-se mutuamente, alicerçando e reforçando práticas e pensamentos em ambos os lados. Em certa medida, é neste território de equilíbrio que se percebe como artista e cientista são designações sinónimas quando se fala de investigação, e colocam em evidência a ideia de pleonasmo associada ao termo artista-cientista. 

Mais do que em qualquer outra época, o dizer sobre o fazer ocupa um lugar central na conjuntura actual, quer ao nível da disseminação proporcionada pelos meios de comunicação, quer pelo papel cada vez mais presente do contexto académico e científico. Nesse sentido, torna-se essencial reflectir sobre o modo como este processo evolui e quais as principais implicações, especialmente na condição dicotómica com o fazer.

O conjunto de textos selecionados pretendem abordar a relação entre o fazer e o dizer sobre o fazer, permitindo-nos um olhar transversal, já que recolhe a participação de intervenientes de diversos campos artísticos desde a prática até à crítica de arte, passando pelo ensino.

Reúne-se neste livro um conjunto de autores, artistas e investigadores, que colaboram no esclarecimento (ou não) do lugar do fazer e do dizer sobre o fazer. Os nove autores foram selecionados por painel científico e de acordo com a pertinência dos conteúdos das suas pesquisas, aqui apresentadas em formato de texto e de imagem, mas salvaguardando a importância do contacto direto com as produções aqui reproduzidas ou enumeradas. 

Organizado em duas partes: i) fazer; ii) dizer sobre o fazer, pretende elencar argumentos e posições que se complementem num espectro alargado. Desta forma, na parte i – fazer, apresenta-se uma introdução sobre a Técnica e Criação, apresentado o texto de Amaral da Cunha: Leonardo da Vinci e o grupo Sforza; de seguida, o texto elaborado por António Quadros Ferreira: Henrique Silva, Dizer a Obra como Processo de Acção, referindo-se à arte como investigação, em Devir Investigação; continuamos com a valorização do processo relacional entre o artista e os elementos, com o texto de Sabina Couto, Domingos Loureiro e Teresa Almeida: A matéria aplicada à prática artística, em o Ser e Interagir; na continuidade da relação física, o corpo assume-se como o emissor e objeto, Corpo e Ação, no texto de João Vilnei de Oliveira Filho e Antonio Wellington de Oliveira Junior: Performance como jogo – reflexão sobre diferentes momentos da performance “Cores”; Antonio García López apresenta, em Reação e Intervenção, um artigo sobre a aplicação e função da arte associada ao papel da proteção anti-terrorista: Entre la estética y la disuasión: una propuesta de mobiliario urbano pictórico y anti-terrorista, num projeto realizado em parceria entre a Universidade de Murcia e uma empresa privada; por fim, apresenta-se como o processo criativo, no design, poderá organizar-se a partir do estudo taxonómico de algumas espécies animais, com o artigo de Pedro Bandeira Maia, Nuno Dias e George Stilwell: Taxonomia dos comportamentos biológicos: intersetando intangibilidades, natureza e design, organizado em Colectar e Inovar.

Na parte ii – dizer sobre o fazer, apresentam-se três textos, organizados a partir de aspetos que trabalham a partir do fazer ou em conexão com o fazer. O primeiro texto diz respeito à necessidade de Contextualizar e Ensinar, e é de autoria de Claudia Paim: Para pensar a performance (e performance para pensar); o segundo texto, de José Dias: A cidade-sistema como promotora de espaços outros, diz respeito à função de Interpretar e Organizar e refere-se à funções de catalogação frequentemente presentes no dizer sobre o fazer; por fim, em Registar e Difundir, Helena Osório em: A Crítica de Arte em Portugal: Uma reflexão sobre a mudança de mentalidades e mercados, com ressalva à falta de publicações de arte e crítica à luz da atualidade, apresenta um levantamento do papel da crítica e edição realizadas em Portugal ao longo dos anos, abordando as oscilações e transformações existentes no seio da crítica e imprensa especializada em arte, em Portugal.

Autor(es)

(Ed / Org)
Editora i2ADS - Research Institute in Art, Design and Society
Local Porto
Ano 2018
ISBN / ISSN 978-989-54111-8-4
Idioma Português
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