Alix #1 – Jornal de estudos em fotografia e cinema

A Fotografia e o Cinema partilham a responsabilidade de introduzirem, com a sua invenção, uma irreversível alteração na inscrição dialógica do tempo e, afirmando‐se como laboratórios visuais da Modernidade, reproduzirem melhor do que qualquer outro meio, os seus conflitos e tensões. É a partir desse cruzamento, primordial e indissociável, que se enquadra a publicação de um jornal inserido no campo dos estudos visuais, que pretende promover uma leitura interdisciplinar com outras formas de expressão da Arte e do Design.

Metáfora ou suporte narrativo para a representação dos movimentos sociais, políticos e culturais, o estudo em Fotografia e Cinema que nos propomos debater, é dedicado a todos os que pretendem desenvolver o seu trabalho na problematização, criação e disseminação de objectos visuais – nas suas muitas formas de edição e exibição.

Para lá das convenções entre operadores de câmara e fotógrafos, cineastas/fotógrafos, entre a fotografia de cena e a cinematografia, propõe‐se pensar a fusão dessa percepção imperfeita e fragmentada do tempo e do espaço que a fotografia e o cinema concretizam, numa reflexão assente na diluição das fronteiras de ambos os meios.

No contexto da investigação desenvolvida na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, esta publicação é entendida numa relação transversal entre os seus múltiplos campos de actuação, contribuindo para o fazer de uma memória e de modos de legibilidade e visibilidade da história das imagens.

Com o título Alix, trata‐se de um jornal semestral, composto por quatro secções, em que se articulam ensaios visuais produzidos por ex‐estudantes dos vários ciclos de estudo da FBA.UP (Câmara), ensaios críticos de história e teoria da imagem, fotografia e cinema (Situação Crítica), recensões de livros, filmes ou exposições de fotografia (Olhar—Ver) e a agenda semestral dos filmes exibidos no âmbito do programa Cinema de Bairro, incluindo, excepcionalmente, um panorama dos cem filmes que se viram nos últimos cinco anos na Aula Magna da Faculdade.

Neste primeiro número, olhamos de perto para as imagens pobres, necessárias, resistentes e imperfeitas, para perceber a reemergência da sua condição política e a importância da sua persistência e da sua materialização.

Através das imagens que definem a nossa História, é inevitável perceber que hoje essa condição, pela velocidade, supressão da distância e escala, se situa na maximiza‐ ção da circulação das próprias imagens, na capacidade de indexar e editar a sua visibilidade e na descodificação criteriosa das suas hiperligações.

Os sintomas de potência das imagens e a complexa estratégia de poder e contrapoder que nelas se investe ao longo dos tempos, redunda no triunfante debate sobre o seu valor de verdade. A crítica amplia‐se com frequência para as suas qualidades de coisa múltipla, para a relativização da realidade, como se tudo fossem jogos de reflexos e difracção das aparências, réplicas, falsos, ou profundamente falsos. É por isso que, neste número, se traduz o manifesto Em defesa das imagens pobres de Hito Steyerl, originalmente publicado em 2009, que reconhece a urgência em refazer e actualizar uma pedagogia crítica para as imagens, admitindo o princípio de conexão que nelas se joga e os vínculos, mais ou menos erráticos, sobre os quais importa assumir um posicionamento que possa fixar e descodificar a consequente manipulação a que estão sujeitas.

Alix deve o seu nome à curta metragem realizada por Jean Eaustache intitulada Les photos d’Alix, filmada num só dia: 5 julho de 1980 e montado por ele de 15 a2 5 de Julho do mesmo ano. Alix Cleo Roubaud (sua amiga) fala com Boris Eustache (seu filho) sobre as suas fotografias. A rodagem é feita na sua casa em Paris, na Rua Vieille du Temple. É uma curta metragem de baixo orçamento, com um genérico inicial caseiro feito por Boris. Os dois protagonistas estão sentados, em frente a fotografias de Alix que fala livremente sobre elas, pensando a imagem ligada à palavra e improvisando um discurso.

Este foi o seu último filme. Jean Eustache suicidou‐se em Novembro de 1981 e Alix escreveu‐lhe em forma de epitáfio: – Eu sou a tua memória. As frases que tu dizes aos anjos, à noite, sem a tua lembrança, é o que mais irei notar. Sem grande lealdade. As imagens que tu não vês. As frases que tu não entendes. A tua amnésia. Serei a tua documen‐ tação, a tua fototeca, as tuas cassetes, os teus livros. E, um dia, o teu esquecimento.

Mais informações:
https://alix.fba.up.pt/

Editora I2ADS/FBA.UP
Ano 2020
ISBN / ISSN 2184–7991